quinta-feira, 18 de maio de 2017

Magnificência

Ao levar minha filha à escola pela manhã, reconheci mãe e filha do meu bairro fazendo a caminhada matinal. 

No momento pensei: “ainda não caminhei um dia esta semana”; para depois pensar: “nossa, nunca caminhei com minha mãe”.

Meu pensamento foi interrompido pela filha aumentando o volume do som para também ouvir o mantra “So much magnificence”,  que justamente fala da grandeza que nos chega todo dia. Por um momento achei interessante ela querer ouvir, geralmente entra no carro com mau humor, se queixando sempre dos meus mantras; senti-me grata por vê-la tranquila e compartilhando daquele momento comigo. Estávamos caladas - como aquela mãe e filha - mas compartilhando do mesmo momento de paz.

Isso me fez pensar que preciso urgente parar de "julgar" as pessoas, de repente, aquela mãe e filha também compartilhavam do mesmo silêncio... ou da mesma dor (vai saber...), mas ao fazer o retorno para casa elas atravessaram minha frente e pude ver os fones no ouvido da filha.

Fiquei reflexiva por ela por muitos motivos: também tem filhos e não se deu conta
que essa história pode se repetir; que exatamente amanhã ela poderá acordar órfã de mãe e nunca mais caminhará pela manhã em sua companhia... ou poderá mais tomar um cafezinho na casa da mãe depois de deixar as crianças no colégio... Quantos dariam de tudo para ouvir novamente a mãe cantarolando sua música predileta, com a barriga no fogão ou no tanque? Rubem Alves dizia que a vida não pode ser economizada para amanhã, ela acontece sempre no presente... e não é hoje, o presente, senão um presente diário?

Sabe, eu e minha mãe temos nossos defeitos e nossas diferenças, mas quando penso nela caminhando ao meu lado, eu não consigo me imaginar usando fones de ouvido mesmo sabendo que ela tagarela demais rs. Na verdade, penso que será uma grande disputa pela palavra, afinal, assim como ela, eu também tagarelo demais.

Pensar como será deu-me a idéia de convidá-la para compartilharmos juntas do amanhecer do dia, ou do esquentar da tarde, ou ainda do esfriar como pôr-do-sol nesta época do ano... Mesmo ainda não feito, fico feliz por saber que o silêncio - ou um fone de ouvido - nunca será uma ponte entre nós. De todos meus defeitos que reconheço (e de muitos que ainda não devo enxergar) este pelo menos não carrego, e constantemente reconheço que o presente é Sagrado! 

E assim todos devemos o tratar, afinal, a única coisa que nos é certa nesta vida é que morreremos, e a grande façanha é que não sabemos quando. Posso terminar de digitar este texto e infartar, posso atravessar a rua e ser atropelada, posso sentir fortes dores de cabeça e um aneurisma me levar ao óbito... e vamos ser sensatos, não há como não sermos pragmáticos! É a vida...

O mantra abaixo diz que "um oceano de amor vive dentro de cada coração, é a fonte de paz para a alma e a fonte de paz para o mundo". Vamos então deixar transbordar este sentimento para não nos arrependermos daquilo que não deu tempo de ser feito. 

Não somos capazes de "amar a todos como se não houvesse amanhã", mas podemos reverenciar o presente, dar nosso melhor à nós mesmos e a todos que cruzarem nosso caminho, hoje... só hoje.

Como disse Bezerra de Menezes: "Solidários, seremos união. Separados uns dos outros seremos pontos de vista. Juntos, alcançaremos a realização de nossos propósitos".

Namastê